14 ago 2018

A maconha, o cérebro e a psicose

Pouco se fala (cientificamente) sobre quais são os efeitos da maconha no cérebro. Como ele reage a ela? Existem sequelas do uso? O uso é mesmo maléfico ou pode ser benéfico? E a tal da Esquizofrenia?

Um dos assuntos mais polêmicos de hoje em dia é a maconha, que se envolve em discussões que variam da legalização ao uso medicinal. Mas pouco se fala (cientificamente) sobre quais são os efeitos da maconha no cérebro. Como ele reage a ela? Existem sequelas do uso? O uso é mesmo maléfico ou pode ser benéfico? E a tal da Esquizofrenia?

Os canabinoides

A maconha, como qualquer outra planta ou ser vivo, não possui só uma substância química no interior de suas células. Representa mais um coquetel de moléculas diferentes que uma fonte de um composto específico. As duas principais substâncias conhecidas de sua composição são o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD). O primeiro é o principal alucinógeno do vegetal, sendo responsável pela maioria dos “baratos” do uso recreativo da droga. Já o segundo, ironicamente, é como que um antagonista do primeiro, atuando mais como analgésico e desempenhado outros efeitos terapêuticos semelhantes.

A atividade cerebral com a maconha

O que alguns estudos com neuroimagem observaram é que, após o uso da maconha ou a administração do THC isoladamente, os indivíduos apresentavam uma atividade reduzida em lobos temporais, giro frontal inferior e ínsula, ao mesmo tempo que havia uma ativação exagerada do córtex pré-frontal dorsolateral. Tudo isso foi observado simultaneamente a testes que envolviam o uso da memória e atividades executivas (aquelas que exigem concentração e planejamento para serem executadas). A capacidade de realização dessas atividades pelos sujeitos das pesquisas estava diminuída após o uso do THC ou da maconha.

Mas e esses aumentos de atividade em algumas regiões? Ao que tudo indica, essas regiões estavam hiperativas por estarem se esforçando mais para cumprir as mesmas tarefas de antes, ao mesmo tempo em que recrutavam áreas cerebrais que normalmente não estavam envolvidas naquela determinada função. Em outras palavras, o cérebro estava com mais dificuldade de realizar tarefas cognitivas, necessitando de maior atividade para atingir os mesmos resultados anteriores ao uso da droga.

Ao mesmo tempo, os indivíduos apresentavam uma dificuldade em suprimir a “rede de modo padrão”. Essa rede é um circuito de estruturas ativadas quando a atenção da pessoa sai do mundo externo e a mente vaga. Consequentemente, sem inibir esse sistema, não conseguimos nos concentrar em atividades a serem executadas, semelhante ao que ocorre no uso da maconha. Ao mesmo tempo, os sujeitos da pesquisa apresentavam menor ativação em regiões do córtex cerebral responsáveis por manter a capacidade de concentração, comprometendo ainda mais a execução de tarefas.

Maconha x Esquizofrenia

Mas onde a Esquizofrenia e outras síndromes psicóticas entram em todo esse assunto sobre a maconha? Inicialmente, os efeitos da droga são muito semelhantes aos sintomas de uma síndrome psicótica (delírios, alucinações, dificuldade de concentração e de memória etc). Mas, mais que isso, todas as alterações citadas na seção anterior também estão presentes em pacientes com Esquizofrenia.

Outras alterações que coincidem são:

  • O aumento da substância branca com redução simultânea da substância cinzenta no hipocampo e na amígdala (culminando em dificuldades na memória de curto prazo e comportamentos sociais “inadequados”);
  • Hiperatividade do córtex pré-frontal por diminuição da atividade GABA (culminando em desatenção);
  • Hiperatividade da via mesolímbica e mesoestriatal pelo mesmo mecanismo. Esse último efeito aumenta a liberação de dopamina no núcleo estriado e córtex cerebral, causando as alucinações características da psicose e também do uso da maconha.

Uma das principais drogas recreativas usadas pelo público mais jovem. Alguns estudos indicam que a maconha possa ter relação com o desenvolvimento de Esquizofrenia e outras psicoses.

Maconha e adolescência

Durante a adolescência existe um grande aumento na atividade do sistema endocanabinoide no cérebro, provavelmente para coordenar todas as mudanças comportamentais, emocionais e os aprendizados que ocorrem ao longo dessa fase. Por consequência, essa é a época em que o cérebro está mais sensível ao THC da maconha.

Daí a preocupação dos pesquisadores com efeitos a longo-prazo do uso da maconha nessa faixa etária. Semelhante ao que ocorre na gestação, o cérebro na adolescência está sendo moldado, com produção de novas conexões e mudanças estruturais; assim, poderá sofrer desequilíbrios mediante o uso da maconha.

A suspeita é apoiada por alguns estudos que observaram uma maior incidência de Esquizofrenia em adolescentes que faziam uso da droga. O transtorno também surgia mais cedo (por volta dos 15 aos 19 anos) nos usuários, o que significa um pior prognóstico quanto ao tratamento e complicações.

O dilema

O objetivo desse texto não é opinar quanto às questões tão debatidas como legalizar ou não o uso da maconha, liberar seu uso terapêutico, ou outras discussões semelhantes. O objetivo é passar algumas evidências científicas sobre o assunto, que nem sempre são divulgadas tão amplamente quanto necessário.

Mesmo as pesquisas são falhas em alguns momentos. A maioria dos estudos apenas avaliou os efeitos do “uso” da maconha, sem necessariamente observar as diferenças em relação à quantidade de maconha usada, a frequência com que é usada, as diferentes formas de preparação da droga, as diferentes proporções de THC nessas preparações, dentre outras coisas.

Além disso, os vários dilemas que cercam o assunto são complexos e delicados, não dependendo apenas das questões médicas ou científicas, mas também de questões sociais, políticas, legistativas e culturais.

Contudo, o importante para resolver essas questões é entender o caráter sistêmico do assunto, não sendo possível chegar a conclusões e condutas adequadas sem considerar cada um dos pontos em questão (do científico ao cultural).

Fontes: Progress in Neuro-Psychopharmacology and Biological PsychiatryBritish Journal of Pharmacology.

14 ago 2018

Drogas e seus efeitos no organismo

Drogas são toda e qualquer substância capaz de alterar as funções fisiológicas ou psicobiológicas de um organismo. Dessa maneira, um analgésico ou um antiácido, frequentemente tomados para melhorar mal-estar, também são considerados drogas. Entretanto, o termo “drogas” é comumente usado para definir as substâncias ilícitas, ligadas ao tráfico e ao mundo do crime. Apesar de não estar errado, definir como drogas apenas essas substâncias é uma abordagem ingênua.

É possível observar que boa parte das drogas é legalizada e usada na medicina para tratar os mais variados tipos de doenças. No entanto, algumas delas geram polêmica por causar dependência. No Brasil, há uma grande quantidade de drogas proibidas, mesmo que sejam para tratamento médico.

A regulamentação ou não de determinadas drogas varia conforme a legislação de cada país. Em alguns lugares, por exemplo, a maconha é usada na medicina, o que ainda não é permitido no Brasil.

Tipos de drogas

As drogas podem ser classificadas conforme sua origem ou de acordo com seus efeitos no organismo. No primeiro caso, são três classificações: naturais, sintéticas e semissintéticas. Já quanto ao efeito, podem ser: depressoras, estimulantes ou perturbadoras. Veremos a seguir mais detalhes sobre cada uma delas.

Drogas naturais são aquelas que provocam efeitos alucinógenos de uma forma natural, sem a composição de produtos químicos – isso significa que a produção não é feita em laboratório. Esses tipos de drogas se diferem das drogas sintéticas, que são produzidas por meios químicos. São exemplos de drogas naturais a maconha e a cafeína.

As drogas sintéticas são aquelas produzidas a partir de uma ou várias substâncias químicas psicoativas, que provocam alucinações por estimular ou deprimir o sistema nervoso central. Podem ser utilizadas sob as formas de injeção, comprimido ou pó, e seus efeitos variam conforme a substância. Podemos citar anfetaminas, LSD e ecstasy, por exemplo.

No caso das drogas semissintéticas, há uma junção das outras duas classificações. São produzidas com base em drogas naturais, mas sofrem alterações químicas em laboratório. Encaixam-se nessa definição crack, merla e cocaína.

Efeitos

Em relação aos efeitos, o tipo de droga mais comum é a estimulante, aquela que acelera a atividade do sistema nervoso central (SNC), aumentando o estado de vigília. Apesar de seu uso ser proibido ou restrito a tratamentos médicos, é comum encontrar usuários, por vezes viciados.

No grupo de drogas estimulantes estão o crack, a cocaína e o ecstasy, que têm o uso proibido. As anfetaminas também são estimulantes, mas têm utilização regulamentada para o tratamento de alguns transtornos neurológicos.

Ao contrário das estimulantes, as drogas depressoras diminuem a atividade do SNC, podendo causar delírios. É o caso dos inalantes, como cola e outros solventes. Na medicina é comum o uso desse tipo de droga pra tratar insônia e ansiedade, com soníferos e ansiolíticos, respectivamente.

A última categoria de drogas, quanto aos efeitos, são as perturbadoras. Em princípio, elas causam uma sensação de bem-estar e diminuem o cansaço. No entanto, provocam também alteração na noção de tempo e espaço, além de delírios e alucinações. Encontram-se nesse grupo drogas como maconha, LSD e haxixe.

Quais são as drogas mais usadas no Brasil?

– Álcool

– Energéticos

– Maconha

– Cafeína (pastilhas)

– Tabaco e Narguilé

– LSD

– Ecstasy

– Cocaína

– Benzodiazepínicos (ansiolíticos)

Entre os brasileiros há um alto consumo de álcool, energéticos e tabaco, sobre os quais não há proibição de uso. É comum também o uso de maconha e cocaína, que são substâncias proibidas.

A maconha é a droga ilícita mais usada no Brasil. Segundo pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), realizada em 2012, 7% da população adulta do país já fumou a erva e cerca de 1% da população brasileira é dependente dela.

A mesma pesquisa aponta que 4% da população adulta já experimentou cocaína, seja em pó ou pasta base (crack, merla ou oxi), mas o índice de usuários é de 0,2%.

Em relação ao álcool, 54% dos brasileiros bebe pelo menos uma vez por semana. O índice é maior entre os homens (64%) e menor entre as mulheres (39%). A pesquisa também revela que o Brasil possui 11,7 milhões de pessoas que são dependentes ou abusam do consumo de álcool.

Na Justiça, especialistas divergem quanto ao flagrante e na forma como o detido será enquadrado: se usuário ou traficante. Também há um movimento grande de estudiosos que defendem a legalização da droga. O extrato da maconha (canabidiol) pode reduzir as convulsões epiléticas graves, por exemplo.

22 out 2015
onde tratar vicio de maconha e cocaina em curitiba

Superando a Dependência Química

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define droga como sendo toda substância, natural ou sintética, capaz de produzir em doses variáveis os fenômenos de dependência psicológica ou dependência orgânica, sendo considerado um problema de saúde.

Uso – Significa dizer que o usuário consome de forma administrável qualquer quantidade de droga.

Abuso – Entende-se que ocorre um padrão no consumo, o qual aumenta as possibilidades de consequências que prejudicam o usuário. O abuso compreende não somente danos físicos e mentais, mas também sociais.

Depedência – É tida como uma enfermidade crônica que provoca alterações fisiológicas, psicológicas e sociais e que se caracteriza por uma tendência compulsiva para o consumo de drogas..

Diversas são as razões que levam uma pessoa a consumir drogas e para cada usuário há um grau de comprometimento social, ocupacional, familiar e clínico. Perceber o dano causado a si próprio e buscar ajuda o quanto antes, contando com suporte familiar e de especialistas, é de suma importância para o êxito no tratamento.

A Casa Liberdade oferece tratamento especializado e orientação para aqueles que apresentam uso problemático de álcool ou outras drogas (lícitas e ilícitas), assim como para aqueles que possuem familiares lidando com essas questões.